O Encontro Regional Sul do Sinasefe, que ocorreu no Instituto Federal Catarinense, em Balneário Camboripu (SC), consolidou-se como um espaço de construção coletiva e reflexão crítica diante de um cenário de ataques neoliberais e avanço do conservadorismo. A avaliação é da professora da UFSM, Lidiane Barroso, que esteve no evento representando a diretoria do Sinasefe SM.
Segundo ela, ao longo dos três dias de discussão (15 a 17 de maio), ficou evidente que a defesa da carreira e das condições de trabalho é indissociável do enfrentamento às opressões estruturais, como a misoginia e o racismo, e também mostrou a importância da atenção urgente em preservar a saúde mental do trabalhador. “Saímos desse evento com a consciência de classe fortalecida e a certeza de que o sindicato deve ser, acima de tudo, um local de acolhimento e resistência permanente”, frisa Lidiane.
O desfecho do encontro foi a elaboração e divulgação da Carta de Camboriú, em que, segundo Lidiane, ficou reafirmado “nosso compromisso com a educação pública, crítica e emancipadora, levando à convicção de que, perante os desafios da conjuntura atual, só a luta muda a vida”.

Educação pública em um cenário neoliberal e conservador
Na visão da Secretária de Administração do Sinasefe SM, os dois dias do Encontro da Regional Sul foram bastante enriquecedores. Ainda no primeiro dia do evento, a mesa de abertura debateu a educação em um cenário em que se destacam as políticas neoliberais e também a visão conservadora.
Entre os principais pontos discutidos na mesa inicial estão:
* Defesa da educação pública, crítica ao avanço do fascismo e das políticas neoliberais;
* Impactos da desindustrialização, das reformas trabalhistas e da precarização do trabalho;
* Necessidade de fortalecimento dos sindicatos, do trabalho de base e da organização coletiva;
* Debate sobre misoginia, racismo, LGBTfobia, capacitismo e outras formas de opressão;
* Adoecimento dos servidores, saúde mental, assédio moral e condições de trabalho;
* Inclusão e necessidade de equipes AEE nos campi da Rede Federal;
* Reflexões sobre greve, carreira, reajuste salarial e direitos dos aposentados;
* Importância da participação política e sindical diante do cenário eleitoral de 2026;
* Defesa da autonomia, independência sindical e construção do pensamento crítico;
* Chamado à solidariedade, à mobilização coletiva e à ampliação da luta sindical.

Carreira, aposentadoria e saúde
No sábado, 16, o evento iniciou debatendo carreira, aposentadoria e os impactos na saúde dos trabalhadores dentro e fora dos espaços de trabalho.
A maioria das manifestações trouxe reflexões sobre a desumanização provocada pelas métricas e pelo Programa de Gestão e Desempenho (PGD), o adoecimento institucional, os assédios nas perícias e a fragilidade das políticas de Saúde e Segurança do Trabalho diante dos cortes orçamentários.
Também foram debatidos os desafios da organização coletiva, a valorização dos servidores, a precarização das equipes de trabalho e a necessidade de transformar os debates em políticas efetivas de cuidado e permanência. Entre críticas e proposições, participantes reforçaram a importância de ocupar os espaços institucionais, fortalecer o acolhimento, pressionar o Estado por políticas públicas consistentes e resgatar os princípios dos Institutos Federais na construção de horizontes para a classe trabalhadora.

Gênero, escuta e opressões
Outra temática importante abordada no segundo dia do evento (sábado, 16/05) foi a mesa que trouxe reflexões sobre gênero, sexualidade, escuta e opressões no trabalho e na sociedade.
Um dos palestrantes, Lino Gabriel, problematizou as categorizações de gênero e sexualidade, questionando a lógica binária e a ideia de que pessoas trans seriam “simulações” de pessoas cis. Também refletiu sobre diversidade, representação e pertencimento nos espaços coletivos.
Também fazendo parte das discussões, Gabriela Albuquerque destacou a importância da escuta amorosa e empática, do acolhimento e do fortalecimento coletivo, especialmente diante dos afastamentos por saúde e das violências estruturais naturalizadas no cotidiano.
Gabriel Oliveira, outro convidado, debateu identidade, sexualidade e machismo estrutural, trazendo reflexões sobre o “não lugar” da diversidade e os desafios da paridade e da representatividade dentro das organizações sindicais.
Sônia Lamego compartilhou experiências marcadas por opressões e assédios vividos como mulher negra na educação, relacionando essas vivências às estruturas de poder, aos riscos psicossociais e às violências presentes nos ambientes de trabalho.
Na avaliação de Lidiane Barroso, essa mesa foi marcada por importantes momentos de escuta, reflexão crítica e debates sobre diversidade, trabalho e dignidade humana.

Formação militante e estratégias de organização sindical
Reunir diferentes experiências e reflexões sobre os desafios atuais da organização sindical, da formação política e da luta coletiva. Essa também foi uma das mesas presentes ao Encontro da Regional Sul do Sinasefe.
Uma das expositoras, Viviane Miranda, destacou a importância da organização de base, da consciência de classe e da presença do sindicato no cotidiano das escolas e das lutas sociais. Ainda reafirmou a defesa da educação pública, da emancipação da classe trabalhadora e da construção coletiva frente às desigualdades e ataques aos direitos sociais.
Otávio Colussi trouxe a perspectiva do movimento estudantil, debatendo permanência, orçamento, acesso à cultura, ciência e educação pública. Relacionou os impactos da precarização do trabalho na vida da juventude e reforçou a necessidade de formação política diante do avanço do fascismo e da privatização da educação.
Aline Minela compartilhou sua trajetória ligada ao movimento sindical desde a infância e destacou a importância da consciência de classe, da saúde mental e da formação política dentro das escolas. Defendeu o sindicato como espaço de acolhimento, resistência e construção coletiva.
Muhamad Husein abordou a solidariedade internacional e a causa palestina, debatendo guerra, perseguições, educação e formação crítica. Ressaltou a importância da informação, da conscientização política e da luta contra diferentes formas de opressão e autoritarismo.
Francisco Freitas problematizou as mudanças no mundo do trabalho, a plataformização, a precarização das relações trabalhistas e os impactos da reforma trabalhista. Também defendeu o fortalecimento da organização sindical de base, a redução da jornada de trabalho e o enfrentamento às desigualdades sociais.
Para Lidiane Barroso, as falas tiveram em comum pontos que enfatizaram a necessidade de fortalecer a formação militante, ampliar os espaços de debate político e construir estratégias coletivas de resistência em defesa da educação pública, dos direitos sociais e da classe trabalhadora.

Formação emancipadora e socialmente referenciada
Durante o evento também houve espaço para a mesa em que falas refletiram sobre os impactos do conservadorismo na educação, o avanço do empreendedorismo e das reformas educacionais, além dos desafios enfrentados pela formação crítica nas escolas e Institutos Federais.
Também foram debatidos o papel dos sindicatos, da pesquisa e da organização coletiva na defesa da educação pública, democrática e voltada aos filhos da classe trabalhadora.
Os participantes destacaram a importância do Ensino Médio Integrado, da articulação entre trabalho, ciência e cultura, do acesso à produção cultural e do fortalecimento dos IFs como espaços de formação humana, crítica e emancipadora.
Foi reafirmado que discutir educação vai muito além de financiamento e carreira. Envolve projetos de sociedade, disputas políticas e o compromisso com uma formação pública de qualidade socialmente referenciada.

Texto: Fritz Rivail
Fotos: Arquivo pessoal/Lidiane Barroso
